Paróquia de
Nossa Senhora do Amparo
Benfica · Lisboa
← Uma Palavra
17 OUTUBRO 2026

A coragem de dizer: estou doente

O Papa Leão XIV falou abertamente da sua doença. Numa semana em que Jesus nos dizia «Não tenhais medo», este gesto fez-me pensar na forma como enfrentamos as nossas dificuldades e cuidamos uns dos outros.

Pe. Nuno Rosário FernandesPároco in solidum (moderador)

Nem sempre é fácil dizer «estou doente». Ainda mais quando se trata de uma doença grave, quando não sabemos o que nos espera e quando sentimos que os outros precisam de nos ver fortes.

No passado domingo, 11 de outubro, o Papa Leão XIV anunciou, no final da oração do Ângelus, que os médicos tinham descoberto um nódulo no seu pulmão e que teria de ser operado. Falou com naturalidade, sem esconder a situação, e terminou com um pedido muito simples: «Confio-me às vossas orações!»

O Papa, que tantas vezes nos pede para rezarmos pelos outros, pedia agora que rezássemos por ele. Este gesto fez-me pensar!

Estamos habituados a ver o Papa como alguém que nos transmite esperança, que acompanha os que sofrem e que procura levar uma palavra de conforto a quem mais precisa. Mas, naquele domingo, foi ele quem nos mostrou que também é frágil, que também está doente e que também precisa da ajuda dos outros. E não deixou de ser Papa por causa disso. Pelo contrário, mostrou-nos que não precisamos de esconder as nossas dificuldades para continuarmos a ser quem somos.

Vivemos num tempo em que parece que temos de estar sempre bem. Quando alguém nos pergunta como estamos, respondemos quase automaticamente que está tudo bem, mesmo quando não está. Muitas vezes escondemos os nossos problemas, os nossos medos e até as nossas doenças. Às vezes fazemos isso para não preocupar a família. Outras vezes porque não queremos que tenham pena de nós. Ou simplesmente porque não queremos incomodar ninguém.

E quantas pessoas vivem assim, em silêncio, com uma doença que as preocupa, com medo do futuro, mas sem coragem para falar? O Papa mostrou-nos que não há mal nenhum em reconhecer que precisamos de ajuda. Também ele precisa de médicos, de tratamentos, de descanso e de cuidados. Também ele enfrenta as dificuldades próprias de quem está doente. E isto lembra-nos uma coisa muito simples: todos precisamos uns dos outros.

Há uma coincidência que me fez pensar ainda mais. Precisamente nesta semana, em que acompanhámos as notícias sobre a doença do Papa, a liturgia trouxe-nos o tema do medo. No Evangelho de sexta-feira, Jesus dizia aos discípulos: «Não tenhais medo». Estas palavras ganham um sentido especial quando pensamos na doença. Porque é natural ter medo. Medo de um diagnóstico, de uma operação, de um tratamento ou simplesmente de não saber o que nos espera. E ter fé não significa deixar de sentir esse medo.

Jesus não nos promete uma vida sem problemas, nem nos diz que nunca vamos sofrer. Mas lembra-nos que somos importantes aos olhos de Deus e que Ele não nos abandona, mesmo nos momentos mais difíceis. O próprio Jesus, no Jardim das Oliveiras, sentiu medo e angústia perante o sofrimento que se aproximava. Por isso, ter fé não significa fingir que está tudo bem.

Podemos acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, ter medo de um diagnóstico. Podemos rezar e precisar de tratamentos. Podemos confiar e, mesmo assim, sentir-nos inseguros quanto ao futuro. A fé não faz desaparecer todos os nossos problemas, mas pode ajudar-nos a enfrentá-los. E, sobretudo, lembra-nos que não temos de passar por eles sozinhos.

Não sabemos se Leão XIV teve medo quando recebeu o diagnóstico. Mas sabemos que não escondeu a doença e que pediu as nossas orações. Talvez seja esta uma forma de compreender as palavras de Jesus: «Não tenhais medo» não significa que temos de ser sempre fortes. Significa que, mesmo quando temos medo, não estamos sozinhos.

Há também outra coisa que me parece importante neste gesto do Papa. Quando alguém fica doente, corremos o risco de passar a olhar para essa pessoa apenas pela doença que tem. Perguntamos pelos exames, pelos tratamentos, pelos resultados, e esquecemo-nos de que continua a ser a mesma pessoa.

Quem está doente continua a precisar de conversar, de rir, de estar com os amigos, de participar na vida da família e da comunidade. Continua a ter sonhos, projetos e vontade de viver. A doença faz parte da sua vida, mas não é toda a sua vida. E cuidar de alguém não é apenas perguntar como correram os exames ou se os tratamentos estão a resultar. É também saber estar presente, ouvir, respeitar os momentos de silêncio e perceber que há dias melhores e dias piores.

Nem sempre precisamos de encontrar as palavras certas. Muitas vezes basta estar ao lado. É verdade que nem todas as pessoas querem falar da sua doença. E isso também deve ser respeitado. Cada um tem o direito de decidir o que quer partilhar e com quem. O gesto do Papa não significa que todos tenham de tornar públicas as suas dificuldades. Mas lembra-nos que estar doente não é motivo de vergonha.

Neste sábado, 17 de outubro, recebemos a notícia de que Leão XIV pode deixar o hospital, depois da cirurgia a que foi submetido. É uma boa notícia, embora saibamos que a recuperação ainda exige tempo e cuidados. Mas há algo que estes dias já nos ensinaram. O Papa mostrou-nos que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Que não precisamos de esconder aquilo que nos preocupa. E que ninguém, por mais importante que seja a sua missão, deixa de precisar dos outros. Talvez este seja também um bom momento para pensarmos nas pessoas doentes da nossa paróquia. Naquelas que vivem sozinhas, nas que esperam pelos resultados de exames, nas que enfrentam tratamentos difíceis e nas famílias que, todos os dias, cuidam de alguém.

Será que estamos suficientemente atentos a estas pessoas? Será que sabemos escutar? Será que encontramos tempo para uma visita, uma chamada ou uma palavra amiga? Às vezes, um gesto tão simples pode fazer uma grande diferença na vida de alguém. Uma comunidade cristã deve ser precisamente isso: um lugar onde ninguém se sinta sozinho, sobretudo nos momentos mais difíceis. Todos, a começar por mim, precisamos estar mais atentos aos que vivem neste momento algum tipo de fragilidade. 

No domingo passado, o Papa pediu-nos que rezássemos por ele. Um pedido simples, mas que nos recorda uma verdade que tantas vezes esquecemos: todos precisamos de ajuda em algum momento da nossa vida. Hoje podemos ser nós a cuidar de alguém. Amanhã podemos ser nós a precisar de cuidados. Até o Papa precisa. E talvez esta seja a maior lição destes dias: não temos de ser sempre fortes. Temos, isso sim, de aprender a cuidar uns dos outros.

E quando Jesus nos diz «Não tenhais medo», talvez nos esteja também a lembrar que, mesmo nos momentos mais difíceis, nunca devemos deixar ninguém enfrentar o seu medo sozinho.